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ED 021

90 Mbps num plano de 300 Mbps

A Anatel obriga o provedor a entregar 40% da velocidade contratada em cada medição e 80% na média do mês, sob pena de abatimento na fatura.

A fatura de internet aberta ao lado de um cabo de rede.

O teste de velocidade contra o plano contratado

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A tela do teste de velocidade para em 90 Mbps. O contrato diz 300 Mbps, a fatura cobra R$ 109,90 pelo pacote de 300, e o número que aparece no cabo é menos de um terço do que está escrito no papel.

A reação comum é se conformar com a diferença. Todo mundo repete que velocidade contratada é aproximada, que o Wi-Fi perde sinal atravessando parede, que a noite congestiona a rede do bairro. Parte dessas explicações é verdade técnica. A conclusão que se tira delas é que não existe régua nenhuma, e é aí que mora o erro.

A régua existe e é numérica. A Anatel fixou dois pisos de entrega para banda larga fixa: cada medição isolada precisa alcançar pelo menos 40 por cento da velocidade contratada, e a média das medições do mês precisa alcançar pelo menos 80 por cento. Os dois pisos valem ao mesmo tempo e valem para todo provedor licenciado, do nacional grande ao regional de bairro.

Aplicados ao plano de 300 Mbps, os dois viram números fechados. O piso de cada medição é 120 Mbps. O piso da média mensal é 240 Mbps. Uma leitura de 90 Mbps fica abaixo do primeiro e puxa o segundo para baixo, e a diferença deixa de ser sensação de lentidão para virar descumprimento medido.

O que separa a reclamação vaga do protocolo com resultado é a prova. Teste feito no aparelho errado, na hora errada ou na ferramenta errada não sustenta nada, e o atendimento devolve a mesma resposta de sempre sobre o roteador antigo e o Wi-Fi da casa.

A prova que o provedor aceita tem receita conhecida: ferramenta oficial de medição, computador ligado por cabo em vez de Wi-Fi, repetição ao longo de vários dias e horários, e registro de cada leitura com data e hora.

Fechada a prova, a fatura de R$ 109,90 tem um caminho previsto em lei, o abatimento proporcional do preço. Não é cortesia do provedor nem promoção de retenção, é direito escrito no Código de Defesa do Consumidor.

Antes de abrir qualquer medidor, porém, vale abrir a fatura e conferir o que exatamente foi contratado, porque a velocidade que consta ali nem sempre é a que o vendedor prometeu no telefone.

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I  Fatura Linha a Linha

Os 300 Mbps que a fatura cobra

O número que o provedor se comprometeu a entregar está em letra miúda.

A velocidade que vale na discussão é a impressa no contrato e na fatura, nunca a que o vendedor falou por telefone. Onde os dois divergem, o documento escrito vence.

A fatura de internet parece simples porque costuma ter uma linha só de valor cheio. O que ela esconde é a descrição do serviço, a parte em letra miúda que nomeia o plano contratado e fixa o número que o provedor se comprometeu a entregar.

Esse número tem nome técnico, velocidade nominal de download, e é sempre expresso em megabits por segundo, o Mbps. Ele é a base de todo o cálculo que vem depois, porque os dois pisos da Anatel são percentuais aplicados sobre ele.

Existe um segundo número quase sempre ignorado, a velocidade de upload. Em planos de fibra ela costuma ser metade ou um décimo da de download, e os mesmos pisos de 40 e 80 por cento incidem sobre ela.

Onde ler a velocidade contratada

Abra a fatura e procure o quadro de descrição do serviço, normalmente logo abaixo dos dados do titular. Ali aparece o nome comercial do plano, quase sempre com a velocidade no próprio nome, algo como Fibra 300 Mega.

Desça até o detalhamento de valores. A mensalidade do acesso à internet aparece separada de eventuais adicionais, aluguel de roteador, ponto adicional, streaming embutido no combo. O valor que interessa para o cálculo do abatimento é o da linha do acesso, não o total do combo.

Guarde também o número do contrato e a data de adesão impressos na fatura, porque o atendimento pede os dois logo na abertura do protocolo e procurar depois atrasa a ligação.

Quem contratou por telefone tem direito ao contrato escrito e ao resumo das condições. A operadora precisa disponibilizar o documento, e a gravação da venda também fica guardada e pode ser pedida.

Repare que nada disso ainda mede coisa alguma. A fatura só declara o que foi prometido, e é essa promessa em número que vira o alvo da medição.

Vale conferir se o plano da fatura é o mesmo que foi vendido. Migração automática de pacote, promoção que venceu e voltou ao valor cheio, upgrade não solicitado: quando a velocidade da fatura já é menor que a combinada, a conversa muda de assunto antes de qualquer teste, porque o problema passa a ser de cadastro comercial.

Com o número contratado confirmado em papel, sobra descobrir quanto dele chega de fato no cabo, e esse é o terreno em que a regulação já fixou o limite.

 
 

II  Bandeira do Mês

Os dois pisos de 40 e 80 por cento

Velocidade contratada não é promessa aproximada. A regulação transformou a entrega em obrigação numérica com dois pisos simultâneos, um por medição e outro por média do mês.

O primeiro piso trata da medição isolada. Cada teste feito naquele acesso precisa devolver pelo menos 40 por cento do contratado, o que num plano de 300 Mbps significa nunca ficar abaixo de 120 Mbps.

O segundo piso trata do conjunto. A média de todas as medições do mês precisa alcançar pelo menos 80 por cento do contratado, e num plano de 300 Mbps o valor médio mínimo é 240 Mbps.

"A velocidade instantânea de conexão deve corresponder a, no mínimo, 40 por cento da velocidade contratada, e a velocidade média mensal deve corresponder a, no mínimo, 80 por cento da velocidade contratada."

Brasil, Anatel, Resolução nº 574, Regulamento de Gestão da Qualidade da Banda Larga Fixa, 2011.

Uma leitura de 90 Mbps num plano de 300 fica em 30 por cento do contratado. Ela viola o piso instantâneo sozinha, e se o padrão se repete ao longo do mês derruba também a média mensal.

O teste que vale de prova

Medição feita de qualquer jeito não sustenta protocolo. A receita que o atendimento aceita cabe numa tarde:

Passo 1ligue o computador no modem por cabo
Passo 2feche streaming e outros aparelhos
Passo 3rode o medidor oficial da Anatel
Passo 4repita em dias e horários diferentes

O medidor oficial da Anatel é gratuito e roda no computador e no celular. Ele registra as medições no seu perfil, e esse registro é a diferença entre dizer que a internet está lenta e apresentar uma série de leituras datadas.

Wi-Fi não serve de prova. O provedor responde pela velocidade entregue no ponto de terminação da rede, ou seja, na saída do modem, e qualquer perda de sinal depois disso é atribuída à sua rede interna.

Dez medições espalhadas por uma semana já formam uma amostra difícil de contestar. Distribua entre manhã, tarde e noite, porque a queda de horário de pico é justamente o que a média mensal existe para capturar.

"O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, podendo o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha, o abatimento proporcional do preço."

Brasil, Código de Defesa do Consumidor, Lei nº 8.078, artigo 20, inciso III, 1990.

Com as leituras registradas e o número contratado em mãos, o passo seguinte é traduzir a diferença em reais, porque é o valor que move o atendimento.

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III  Quanto em R$

O abatimento sobre R$ 109,90

O plano que abre esta edição serve de gabarito. Contratados 300 Mbps por R$ 109,90, medidos 90 Mbps no cabo, entrega efetiva de 30 por cento contra um piso médio de 80 por cento.

O cálculo do abatimento proporcional parte do que deveria ter sido entregue. O piso da média mensal é 240 Mbps, chegaram 90 Mbps, e a parcela não entregue é de 150 Mbps sobre os 240 devidos, o que dá 62,5 por cento do serviço.

Aplicados os mesmos 62,5 por cento sobre a mensalidade de R$ 109,90, o abatimento é de R$ 68,69 e a fatura justa do mês cai para R$ 41,21. É esse número que entra no pedido do protocolo.

Os valores que entram na conta desta edição:

Mensalidade do plano de 300 MbpsR$ 109,90
Piso de cada medição, 40 por cento120 Mbps
Piso da média mensal, 80 por cento240 Mbps
Velocidade medida no cabo90 Mbps
Parcela não entregue sobre o piso médio62,5 por cento
Abatimento proporcional no mêsR$ 68,69
Fatura justa após o abatimentoR$ 41,21
Abatimento em doze mesesR$ 824,28

O roteiro do protocolo

Junte três provas antes de ligar: a fatura com a descrição do plano e o valor da mensalidade, o extrato das medições feitas no medidor oficial e uma anotação simples com data, hora e resultado de cada teste.

Abra a reclamação no canal de atendimento do provedor e peça três coisas na mesma ligação: o reparo da velocidade, o abatimento proporcional sobre os meses já pagos e o cancelamento sem multa caso o reparo não venha. Anote o protocolo antes de desligar.

O prazo de resposta é curto nesse tipo de reclamação e costuma ficar em cinco dias úteis para serviço de telecomunicações. Passado o prazo sem solução, a reclamação segue para a Anatel, pelo canal de atendimento ao consumidor da agência, e para o Procon, nenhum dos dois com taxa de entrada.

A Anatel abre a demanda diretamente contra a prestadora e o provedor responde dentro de prazo regulado, o que costuma destravar casos parados no atendimento próprio. A plataforma de solução de conflitos do governo também aceita o registro e guarda o histórico.

Vale a inversão do olhar para quem mede e descobre que a entrega está dentro dos pisos. Se o cabo entrega 240 Mbps e o Wi-Fi entrega 60, o problema é a rede interna, e trocar o roteador ou mudar a posição dele resolve por muito menos que um upgrade de plano.

Velocidade contratada é linha de fatura como qualquer outra, e uma série de medições feita uma vez por ano vale mais que qualquer discussão sobre a internet estar lenta hoje.

"Você já mediu a sua internet ligada por cabo, sem Wi-Fi no meio?"

 
 
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A80 por cento da velocidade contratada no plano
B40 por cento da velocidade contratada no plano
CA velocidade que o roteador entrega no Wi-Fi da casa
DNão existe piso, a velocidade é sempre aproximada

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