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ED 047
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A energia desviada que a tarifa de luz cobra de você

A ANEEL reconhece parte das perdas não técnicas no reajuste, e numa conta de 220 kWh essa fatia vale alguns reais por mês.

Poste com fios emaranhados, medidor de luz com lacre partido e fatura dobrada.

O poste, o medidor e a perda na tarifa

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Um poste com três fios a mais amarrados no alto, um medidor com o lacre partido, uma fatura residencial de 220 kWh (quilowatt-hora, a unidade que a conta de luz cobra). Os três pertencem à mesma conta, e só a fatura chega todo mês à sua casa.

Toda energia que a distribuidora compra das geradoras entra na rede dela. Uma parte chega aos medidores dos clientes e vira cobrança. Outra parte some pelo caminho, e some por duas portas diferentes.

A primeira porta é a física. Fio esquenta quando a corrente passa, transformador aquece, e esse calor é energia que nunca acende lâmpada nenhuma. O setor chama essa fatia de perda técnica, e ela existe em qualquer rede elétrica do planeta.

A segunda porta é gente. Ligação clandestina no poste, o gato do vocabulário popular, medidor adulterado, leitura errada, imóvel ligado sem cadastro. O setor chama essa fatia de perda não técnica: energia consumida por alguém que ninguém cobrou. Em bairros onde a equipe de corte não consegue entrar com segurança, ela cresce todo ano.

A distribuidora não engole sozinha o prejuízo. A cada reajuste, a ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) calcula quanto de perda não técnica seria aceitável para aquela área de concessão e deixa essa fatia entrar na tarifa. O que passar do limite fica com a empresa. O que ficar dentro dele, o cliente que paga em dia banca no preço de cada quilowatt-hora.

A conta não traz uma linha escrita energia furtada da rede. A parcela vem diluída no preço unitário, misturada à compra de energia e ao uso dos fios, e por essa razão quase ninguém sabe que paga por ela. Ela também não some quando a casa economiza: encolhe na proporção do consumo, igual ao resto da tarifa.

A primeira seção abre a fatura e mostra em qual parte do preço essa energia desviada se esconde, e por que ela não ganha linha própria.

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I  Fatura Linha a Linha

O quilowatt-hora que carrega dois preços

A tarifa residencial se divide em duas partes. A TE (Tarifa de Energia, o preço da energia comprada das geradoras) e a TUSD (Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição, o preço de levar a energia pelos fios até a casa). Algumas distribuidoras imprimem as duas em linhas separadas; outras somam tudo num preço único por kWh.

As perdas moram dentro dessas duas partes. Nos Procedimentos de Regulação Tarifária da ANEEL, o PRORET (o manual que define como cada tarifa é calculada), a TUSD tem uma componente chamada TUSD Perdas. Nela entram as perdas técnicas, as não técnicas e as receitas irrecuperáveis (contas emitidas que nunca foram pagas).

A perda não técnica não aparece em linha própria da fatura. Ela entra no preço do kWh, dentro da tarifa, e se cobra de todos os clientes da mesma distribuidora na proporção do consumo. Quem gasta 100 kWh paga metade do que paga quem gasta 200.

O cálculo usa um teto. A ANEEL compara cada distribuidora com outras de áreas parecidas, levando em conta violência, renda e ocupação irregular das moradias, e fixa uma meta de perda não técnica para o ciclo. A empresa que estourar a meta arca com o excedente; a que ficar abaixo dela fica com a diferença, como prêmio por combater o furto.

"O custo de um bem é a quantidade daquilo que chamo de vida que se exige em troca dele."

Henry David Thoreau, Walden, 1854.

Onde procurar na sua conta

A fatura padrão traz um quadro de composição do valor, com fatias como energia, transmissão, distribuição, encargos setoriais e tributos. Nenhuma fatia se chama perdas: elas estão espalhadas dentro de energia e de distribuição, sem valor separado.

O único lugar onde o número aparece aberto é o processo de reajuste. Cada reajuste tarifário aprovado pela ANEEL vem acompanhado de uma nota técnica com o percentual de perdas reconhecidas da distribuidora naquele ciclo, dividido entre técnicas e não técnicas. O documento fica público no site da agência, e a busca pela distribuidora encontra a nota mais recente.

A nota também mostra a base usada para medir a perda não técnica: o mercado de baixa tensão, onde estão as casas, os apartamentos e o pequeno comércio. O percentual sai calculado sobre a energia consumida nesse mercado, e ele varia muito de uma concessão para outra, porque cada área tem a sua quantidade de ligação clandestina.

 
 

II  Bandeira do Mês

Quando a energia desviada custa mais caro

A bandeira tarifária (o acréscimo na conta quando gerar energia fica mais caro, sinalizado em verde, amarela ou vermelha) cobra por kWh faturado. Ela incide sobre o que o medidor registrou na sua casa, nunca sobre a energia que sumiu na rede antes de chegar ao relógio.

Só que a energia desviada também foi gerada e comprada. Nos meses em que as usinas térmicas ligam e o quilowatt-hora encarece, cada kWh furtado custou mais para a distribuidora pagar à geradora. Essa diferença de custo entra na CVA (Conta de Compensação de Variação de Valores de Itens da Parcela A, o acerto entre o custo previsto e o custo real), que se cobra no reajuste seguinte.

A bandeira chega à sua fatura no mês do consumo. O custo da energia desviada num mês de bandeira vermelha chega depois, diluído no reajuste do ano seguinte. Os dois saem da mesma usina cara; só aparecem na conta em datas diferentes.

A perda não técnica pesa diferente por região. Para fixar metas comparáveis, a ANEEL agrupa as concessões por complexidade socioeconômica (um índice que combina violência, renda e moradia irregular). A distribuidora que atende muitos bairros sem acesso seguro para as equipes recebe meta mais alta que a de uma cidade pequena do interior.

Daí o paradoxo da tarifa. O cliente que paga em dia numa concessão com muita ligação clandestina financia uma fatia maior da energia alheia. A tarifa não distingue o morador do prédio regularizado do morador da casa ligada no poste: os dois pagam o mesmo preço por kWh, e só um deles recebe a conta.

Os quatro passos para achar a sua parcela

Passo 1descubra qual é a sua distribuidora no cabeçalho da fatura, ao lado do logotipo
Passo 2no site da ANEEL, abra o último processo de reajuste tarifário dessa distribuidora
Passo 3na nota técnica, localize o quadro de perdas regulatórias e anote o percentual de perda não técnica sobre a baixa tensão
Passo 4multiplique esse percentual pelo valor da sua conta para uma estimativa aproximada da parcela do mês

A estimativa sai aproximada porque a perda se paga pelo preço da energia e pelo preço da rede, e as duas partes têm pesos diferentes na conta. Para o orçamento doméstico, a aproximação basta: ela mostra se a parcela é de poucos reais ou de dezenas.

 

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III  Quanto em R$

Duzentos e vinte quilowatts e a parcela alheia

Os valores desta seção adotam premissas declaradas, porque a tarifa e a meta de perdas mudam por distribuidora: conta de 220 kWh, R$ 0,85 por kWh com tributos, bandeira verde, e parcela de perda não técnica equivalente a 3% do valor. Troque cada número pelo da sua fatura e pelo da nota técnica da sua distribuidora.

A conta de 220 kWh, aberta linha por linha:

Consumo no mês220 kWh
Preço por kWh com tributosR$ 0,85
Conta do mêsR$ 187,00
Parcela de perda não técnica a 3%R$ 5,61
Parcela a 3% em doze mesesR$ 67,32
Mesma conta com parcela de 1%R$ 1,87
Mesma conta com parcela de 10%R$ 18,70
Parcela a 10% em doze mesesR$ 224,40

Numa conta de R$ 187,00, a energia desviada por outros clientes custa R$ 5,61 por mês a 3% e R$ 18,70 a 10%. Em doze meses, a diferença entre as duas concessões passa de R$ 150 para a mesma casa, com consumo e chuveiro idênticos.

A parcela cresce com o consumo, como o resto da conta. Uma casa de 100 kWh paga R$ 2,55 por mês a 3%. Uma casa com ar-condicionado que chega a 400 kWh paga R$ 10,20, e no verão essa linha invisível vira o preço de um almoço.

Economizar energia reduz a parcela na mesma proporção, porque ela vem embutida no preço de cada kWh. Cada 10 kWh a menos no mês tiram R$ 8,50 da conta, e cerca de 25 centavos desse valor seriam a fatia da perda não técnica.

Ligação clandestina na sua rua também pesa, e a denúncia é gratuita. As distribuidoras mantêm canal de denúncia anônima de fraude, e cada gato regularizado reduz a perda real da concessão. O efeito numa conta só é pequeno; somado na área inteira, decide se a empresa fica dentro da meta ou acima dela no reajuste seguinte.

Regularizar custa menos que parece para quem vive ligado no poste por falta de renda. A Tarifa Social de Energia Elétrica dá desconto a famílias inscritas no CadÚnico (Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal), e uma casa que sai do gato para a conta com desconto deixa de entrar na perda de todo mundo.

Hoje: pegue a última conta de luz, uma só, e anote dois números num papel: o consumo em kWh e o valor total. Nas próximas 24 horas, multiplique o valor total por 0,03 no celular e escreva ao lado a estimativa da parcela de perda não técnica do seu mês.

"Quanto deu a parcela de perda na sua última conta de luz?"

 
 
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Quiz da edição

Segundo a edição, dentro da fatura de luz, onde fica a parcela de energia desviada (perda não técnica)?

ANuma linha própria chamada "perdas não técnicas"
BComo um tributo federal separado no rodapé
CDiluída no preço do kWh, dentro da tarifa, junto com energia e distribuição
DSó aparece nos meses de bandeira vermelha

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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